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O país ainda possui farmacêuticos tradicionais. Saiba como eles atuam

Profissionais veteranos preservam a tradição de cuidar de gerações de clientes fiéis em meio ao avanço das grandes redes de drogarias 

10/09/2021 às 10h35
Por: Toinho Alves Fonte: R7 - Eduardo Marini, do R7
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- Doutor Pinho, o senhor por acaso quer brincar de Deus?

A pergunta, disparada no final da década de 1950 por um juiz de Sobral (CE), para Felizardo de Pinho Pessoa Filho, escancarava o espanto do magistrado diante da disposição do farmacêutico de salvar a vida de um jovem em agonia, com fraturas na cabeça, após cair do alto de uma jaqueira.

Doutor Pinho garantiu não pretender tanto, mas reforçou sua intenção de tentar devolver o mundo ao desenganado com uma terapia pesquisada, à base de plasma sanguíneo de cavalo, aliada a alguns remédios manipulados. O juiz não escondeu a descrença, mas permitiu a ação e o farmacêutico foi à luta. “Diga que o cidadão vive até hoje. Até hoje”, aconselha ele ao neto David Pinho Pessoa, que o auxilia na entrevista por telefone ao R7.

Felizardo de Pinho tem 103 anos. Exatamente: 103 anos, fechados no último dia 26 de abril com espantosa lucidez. Mais velho farmacêutico brasileiro, é hoje o símbolo maior dos profissionais veteranos do ramo que conquistam a confiança da clientela em farmácias tradicionais de bairros de cidades importantes e regiões carentes do interior do país. Gerações de pacientes informais que ainda buscam, na experiência e sabedoria desses profissionais, a cura para os males mais variados.

Doutor Pinho nasceu e fez carreira de farmacêutico na região de Viçosa do Ceará, cidade de 62 mil habitantes distante 350 quilômetros de Fortaleza, capital do estado, e 65 km da fronteira com o Piauí, em um dos pedaços mais pobres do país.

Filho e neto de farmacêuticos, Pinho fez, em janeiro de 1946, o primeiro diagnóstico, no Ceará, de Calazar, doença causada pelo protozoário parasita Leishmania, transmitido na picada de um mosquito-palha infectado. Por causar inchaço do fígado, baço e área estomacal, a doença passou a ser chamada de Mal do Buchão. A farmácia da família, a Pinho Irmãos, foi fundada em 26 de agosto de 1856, em Viçosa do Ceará, pelo avô, João de Pinho Pessoa.

A postura profissional de jamais se negar a atender um necessitado, ainda que a tarefa envolvesse longos deslocamentos, era uma de suas principais marcas. A ponto de adiar o próprio casamento e sair de casa às 15h de 31 de janeiro de 1958, uma hora antes do que seria o início da cerimônia, para atender ao pedido de “salvar” a mulher de um cliente fiel numa cidade vizinha.

Tanta dedicação permitiu alçar outros voos. Doutor Pinho foi eleito vereador e prefeito em sua cidade, e depois deputado estadual. Aposentado, passa o tempo dedilhando seu piano, mas ainda hoje manipula uma ou outra fórmula para doação ou uso familiar. Aroeira, jucá e bacari, contra inflamações e picadas de insetos, estão entre os ingredientes mais utilizados nas alquimias recentes.

Doutor Pinho gosta de lembrar um lema de seu pai adotado por ele: “Felizardo, jamais deixe um pobre sair da farmácia ou ficar em casa sem atendimento. E se ele não tiver dinheiro para pagar o medicamento, entregue-o mesmo assim, independentemente do preço. Deus te devolverá isso em vida”. Bom, doutor Pinho tem 103 anos.

As grandes cidades também guardam seus Felizardos. No número 278 da Rua Doutor Cesário Mota Júnior, na Vila Buarque, bairro da região central de São Paulo, João Cândido Sobrinho, mineiro de Muzambinho, 80 anos, ainda aconselha seus pacientes antigos, parte dos filhos e até alguns netos deles na bela Farmácia Fibersal, um espaço tomado de nostalgia, onde se destacam prateleiras de madeira e uma balança Filizola, daquelas de design arredondado e visor de ponteiro, com mais de 60 anos de serviços prestados e resistência a quilos de sobra.

Seu João é do tempo em que, entre outras delicadezas para combater sofrimentos, se manipulava e prensava comprimidos, combinava líquidos e se desentupia ouvidos tomados de cera com esguichos de água morna em seringa de vidro esterilizada. O elemento entrava mono na pharmacia, às vezes abafado, quase mute, e saía novamente estéreo, limpinho e cristalino na captação.

“Hoje mudou tudo. Não temos mais aqueles plantões para atender e ajudar as pessoas. A concorrência das grandes redes é muito poderosa. Na pandemia, o movimento chegou a cair 70% em alguns momentos. Havia mais adesão. Ainda resisto porque tenho clientes antigos e fiéis. No nosso caso, faz a diferença”,

As novas legislações hoje impedem farmacêuticos práticos e veteranos, sem formação acadêmica, de executar vários procedimentos que fizeram a rica história da profissão. “A Fibersal hoje é uma drogaria. Não é mais farmácia na definição, ou seja, não manipula medicamento. Apenas vende os encomendados em laboratório”, diz seu João.

O humor logo é recuperado em meio a lembranças do passado. “Meu irmão trabalhava conosco na época em que manipulávamos as fórmulas. Certa vez ele ofereceu um medicamento para calvície a um cliente, que mandou na hora: se isso é realmente tão bom, por que você não usa? Deu para perceber, claro, que meu irmão era careca”. Sobre a balança, cobiçada por colecionadores, deixa uma promessa: “Daqui ela só sairá se for direto para um museu”.

No bairro Floresta, em Belo Horizonte, Luciana Procópio Vilela Alvarenga, 48 anos, formada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1994, é a representante de uma dinastia representativas da profissão no país: a Farmácia Universal, fundada em 1933 por seu avô paterno, Trajano Procópio Alvarenga Monteiro. “Trabalho lá desde os 13 anos de idade. Vendi muita ficha de telefone e aqueles shampoos pequenos que chamávamos de travesseirinho”, lembra.



O avô paterno ficou na farmácia até 1941, quando os tios assumiram. Anos depois, Spencer, pai de Luciana e único dos irmãos formado na profissão, entrou no time. Trabalhou por 70 anos, até a morte, em 2019, aos 94. Do lado materno, o avô, Clyde Alves Vilela, diplomou-se em Farmácia em 1924 na Universidade Federal De Ouro Preto (UFOP). O bisavô materno, prático, fundou em 1904 a Pharmacia Villela, em Nepomuceno (MG).

Entre manipulações de elixires, xaropes, tinturas e papéis medicamentosos, Luciana testemunhou e ouviu boas histórias. As cápsulas dos comprimidos eram feitas de amido, num trabalho artesanal. Vários componentes, usados em quantidades mínimas em algumas fórmulas, são agora proibidos, entre eles estricnina, extrato de cannabis e até mesmo variações de cocaína. “As injeções do antibiótico penicilina benzatina, historicamente muito populares e solicitadas, também estão suspensas nas farmácias. Podem causar choque anafilático. São raros os casos, mas tivemos dois. Os pacientes infelizmente morreram”, conta Luciana.

Um dos trabalhos mais bonitos na história da profissão, realizado até hoje em vários pontos do país, é o de receber e interpretar os bilhetes com a descrição dos sintomas, enviados de locais distantes por pessoas doentes, a maioria de origem simples, impossibilitadas, pelas dores e efeitos, de ir até a farmácia.

Luciana guarda um tesouro com essas preciosidades. “Um deles trocou o primeiro s por c ao escrever supositório. Outro tascou Navagina em vez de Novalgina. Muitos falam em bambeira, leseira no corpo, coisas do tipo, e é preciso advinhar. Um cliente mandou um bilhete pedindo uma embalagem para fazer exame de fezes. Enviamos. Ele mandou outro recado reclamando de que ela estava vazia”, lembra.

Outra dinastia do ramo, estabelecida em Bernardino Campos, no interior de São Paulo, tem como herdeiro Fábio Mora, 41 anos. Filho, neto e sobrinho-neto de farmacêuticos (o avô fez curso de oficial e o pai era prático), Mora tomou gosto pela coisa no período de trabalho na farmácia da família, a Coração de Jesus, inaugurada em 1951 e em funcionamento até hoje, agora aos cuidados de Marcione Mora, a tia mais nova.

Fábio Mora concluiu o curso de Farmácia em 2005. Trabalhou em grandes laboratórios, dedicou-se às consultorias, mas voltou às origens ao criar, em 2015, as páginas Farmacêutico das Antigas no Facebook e no Instagram. Nelas, posta fotos, vídeos, imagens e curiosidades sobre seus familiares e outras personagens do ramo.

Entre as pérolas publicadas por Mora, é possível saber que as primeiras bulas “eram marcas arredondadas feitas com anel para autenticar documentos oficiais”. Daí o nome, vindo do latim bulla, ou seja, bola. E também conhecer detalhes sobre a origem do centenário desinfetante Creolina Pearson, lançado no final dos anos 1800 em Yorkshire, na Inglaterra.

Pode-se ainda confirmar que o gênio da poesia Carlos Drummond de Andrade e a cearense Maria da Penha, inspiradora da lei de punição aos agressores de mulheres, são também farmacêuticos de formação. E descobrir que o pai o avô de Mora presenteavam clientes fiéis da Coração de Jesus com edições dos deliciosos almanaques Sadol, lançados em 1946 com provérbios, piadas, “conselhos úteis”, passatempos, moças bonitas em fotos apimentadas para a época e “conselhos úteis” como o que fazer para se livrar dos enjoos nas viagens de carro.

Jesuz Mora, o avô farmacêutico de Fábio, era frequentemente levado por médicos à casa de mulheres grávidas nos partos. Sua missão era aplicar penicilina nas pacientes para evitar inflamações. Não era raro dormir na sala da casa, ao som dos primeiros berros do novo morador. Igualmente comum era receber porco, galinha, frutas, leite, queijo e legumes como pagamento de quem não tinha dinheiro para acertar os chamados de emergência.

Seu Jesuz recebeu, numa sexta-feira, uma mulher de 40 anos com o barrigão dolorido e para lá de inchado. Orientou a cidadã a comer o quanto aguentasse de marmelada, daquelas de lata, e em seguida tomar até meio litro de uma solução de “sal amargo” em água. “O marido dela voltou várias vezes na farmácia para dizer que, naquele final de semana, ela tinha colocado para fora, no banheiro, o que se poderia imaginar de parasita”, conta Mora aos risos.

A combinação de carinho e responsabilidade social explica histórias como a da família do administrador Carlos Paranhos, paulista de Pedregulho radicado em Brasília. O pai e um tio de Paranhos, Seu Wilson, rebatizado pela força do sotaque rural e interiorano dos clientes como Seu Virso da Farmácia, eram farmacêuticos. Seu Virso era pai de um excelente médico, daqueles sempre dispostos a atender quem precisa quando necessário.

A competência e a generosidade não eram, no entanto, suficientes para equiparar a popularidade do filho doutor à do pai homem do balcão. “Aos finais de semana os dois recebiam muita gente em casa à procura de atendimento. Só que a quantidade de gente atrás do Tio Wilson era muito maior do que os à procura do meu primo médico”, diverte-se Paranhos. “Isso resume o que um farmacêutico significa para quem confia nele”, acrescenta.

“Os farmacêuticos tradicionais deixam um trabalho fundamental e são muito importantes.  Ainda podem executar vários procedimentos, como verificar pressão e temperatura, além de orientar e indicar alguns medicamentos leves e específicos”, explica ao R7 o presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), Marcos Machado Ferreira. “Mas é importante que os diagnósticos e a liberação de medicações complexas sejam feitos por médicos. Essa divisão e as novas legislações favorecem todo mundo”, acrescenta.

Não é o que pensava Walter Henrique. “Agora não pode nada”, reclamou em sua última entrevista, concedida em março de 2019 a Fernando de Maria, do site Boqnews. Explica-se o “pensava”. Nascido em 1925 na pequena Potirendaba, interior de São Paulo, radicado em Santos, Seu Walter abriu as portas de sua Farmácia Brasília, na Ponta da Praia, em 1957, três anos antes da inauguração oficial da capital do país homenageada no batismo do negócio.

Teve duas farmácias antes da Brasília, um primor revestido de azulejos brancos e equipado com móveis em canela-imbuia. “Os marceneiros disseram na época que essas peças iriam durar a vida inteira. Estão intactas”, disse ele orgulhoso, lembrando, em 2019, que os criadores das prateleiras e também os filhos construtores do imóvel haviam morrido, enquanto o conjunto permanecia intacto.

Seu Walter perdeu a conta de quantos curativos fez e desfez, dos pontos cirúrgicos despregados e dos pentes finos de arrastar piolho vendidos. Em um dia do final de 2020, fechou a porta da farmácia para cuidar de uma recaída de saúde e não voltou mais. Trabalhou até a morte, aos 95 anos de idade, os últimos 63 no comando de sua Brasília amadeirada.

Marmelada à frente, os episódios e histórias remetem o repórter à lembrança dos tempos de infância e adolescência em Três Rios, no Estado do Rio, quando era encaminhado pelos pais, junto ao irmão mais novo, à Farmácia Azilena, tradicional na cidade, nos momentos em que se impunha a necessidade de desentupir os ouvidos na água morna da seringa de vidro. De mono ou quase mute a estéreo em alguns minutos.

Na volta, brincadeira na família: “deve ter saído até roda de carroça daí de dentro”, alguém dizia. O consolo era que a ironia batia limpinha, cristalina, bem no fundo do ouvido.

 

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